quarta-feira, 16 de abril de 2014

Acordo de noite (Fernando Pessoa - Alberto Caeiro)


Acordo de noite subitamente, 
E o meu relógio ocupa a noite toda. 
Não sinto a Natureza lá fora. 
O meu quarto é uma cousa escura com paredes vagamente brancas. 
Lá fora há um sossego como se nada existisse. 
Só o relógio prossegue o seu ruído. 
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da minha mesa 
Abafa toda a existência da Terra e do céu... 
Quase que me perco a pensar o que isto significa, 
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca, 
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa 
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme 
É a curiosa sensação de encher a noite enorme 
Com a sua pequenez... 

(Poesia: Fernando Pessoa - Alberto Caeiro - Foto: Eliza Ribeiro - Taperoá - PB)

domingo, 13 de abril de 2014

Coração valente (Clara Nunes)

Coração, coração, coração;
Meu coração padece e viceja,
Vence a correnteza
E afasta esse mal.
Coração valente
Resiste e não cai,
Navega no rio dos fortes;
Seguindo ele vai.
Meu coração poeta descansa
Sobre a esperança
Que os sonhos contêm;
Sem temer o medo
Nos versos tão seus,
Tu chegas, coração, aos pés de Deus.
Coração que pensa em ser feliz
Quando alguém vem sem razão e diz:
“Não luta, coração”,
E coração combate,
Levanta, sai feliz e bate, coração!

(Clara Nunes - autores: Roque Ferreira/Edil Pacheco
Disco: "Clara" - 1981 - EMI-Odeon 062 421224 -
Fotos do vídeo: internet e Bete Diniz)

sábado, 12 de abril de 2014

A terra desolada - trecho - (T.S. Eliot)

Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos:
"Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! - mon semblable -, mon frère!"  

(Poesia: T. S. Eliot - foto: Internet)  

A tua ausência

Desculpa-me,
Chove lá fora,
Relampeja, troveja...

Queria segurar tua mão,
Estás longe,
Estás nas estrelas...

Pai, saudade, saudade...




Na minha memória,
Ainda sinto o toque das tuas mãos,
A tua voz suave ainda escuto,
Dizendo-me coisas bonitas, conselhos...

Fecho meus olhos e te sinto perto,
Mas quando os abro e não te vejo
Fico me perguntando:
O que isso significa, a tua ausência?

(Poesia e foto: Eliza Ribeiro - Taperoá - PB)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Solidão de um ser

Lá do alto, enrolado em vida,
Um beija-flor solitário...

Imagina, pois, seu ninho materno,
Ou, quem sabe, seu ninho matrimonial...

Escreve o cientista em formulário
Sua vida, seu ser: 
Mede tantos centímetros,
Pesa tantos gramas...


O primeiro, solitário,
Preocupa-se, talvez, em ser feliz, apenas;
O segundo, com certeza, se preocupa apenas
Em coletar informações do solitário ser,
Para ganhar fama por tal trabalho...

(Poesia e foto: Eliza Ribeiro - Taperoá - PB)

domingo, 6 de abril de 2014

Tempo de decomposição de materiais:

Cascas de frutas: 3 meses.
Chiclete: 5 anos.
Garrafa de plástico: 100 anos.
Jornal: 2 a 6 semanas.
Latas de alumínio: 100 a 500 anos.
Nylon: 30 a 40 anos.
Palito de fósforo: 6 meses.
Papel: 3 meses.
Pilha: 100 a 500 anos.
Ponta de cigarro: 1 a 2 anos.
Sacos e copos plásticos: 200 a 450 anos.
Tampas de garrafas: 100 a 500 anos.
Tecido: 100 a 400 anos.
Vidro: 4.000 anos.

(Texto e foto: Eliza Ribeiro - Taperoá - PB - Pesquisa: internet)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Apenas um adeus (Clara Nunes)

Apenas um adeus não apagará
Um coração em chama;
Apenas quem lhe chama sou eu, sou eu,
Apenas quem lhe ama.

Só quem mexe na terra
Sabe o cheiro do chão;
Só quem faz uma guerra
Sabe o gosto da razão.
Pagando em começo,
Vem o troco no fim;
Eu sou mais esse apreço
Que você fez de mim.
Eu sou mais os meus olhos
Nesta festa de esperar;
Afinal, querida amiga,
Quem vai enxugar o mar?

Apenas um adeus não apagará
Um coração em chama;
Apenas quem lhe chama sou eu, sou eu,
Apenas quem lhe ama.

Esta felicidade
Que o amor ensinou
Não vai ser só saudade,
Não vai ser só desamor.

As noites vão compridas
No passo da manhã;
Façamos das feridas
O nosso talismã.
Fizemos tanta coisa
Que no peito acontece!
Não se faz um adeus
Num coração que não esquece.

(Clara Nunes – autores: Paulinho Diniz/Roque Ferreira/Edil Pacheco)
Disco: "Esperança" - 1979
EMI-Odeon - 062 421168 - Fotos do vídeo: internet